domingo, 23 de maio de 2010

Conduzir uma entrevista com candidato a emprego

por Carla França


Conversa significa trocar idéias sem uma finalidade necessariamente específica. Entrevista já é um encontro ajustado, quando o bate-papo tem pauta e o conteúdo será avaliado. Exige técnica, generosidade e bom senso do entrevistador, principalmente quando se trata de uma entrevista de emprego.


“Mas não precisa ser rígido, o papel do entrevistador é facilitar a conversa, fazendo com que o candidato se sinta tranqüilo para fornecer as informações”, afirma consultora Isabel Arias, ex-diretora de Recursos Humanos da Newcomm e conselheira de Roberto Justus no programa O Aprendiz, da TV Record.


Ainda que o mais usual seja o candidato passar, em princípio, por alguém da área de Recursos Humanos, é comum, pelo menos nos cargos de alto escalão, ser sabatinado pelo presidente ou por um grupo de gestores da empresa. “Entrevistar pessoas é uma forma inteligente de conhecer mais sobre o mercado, mas também uma forma de saber quem são os talentos da empresa e o que os motivam na busca por resultados”, comenta Isabel.



Uma boa entrevista, segundo a consultora, permite ao entrevistador imaginar situações que ele poderá vivenciar com o candidato no futuro, como em discussões, na hora de pedir ajuda e até como seria o encontro numa festa de final de ano da empresa. “Escutar e analisar são as maneiras para melhor interpretar a empatia com o colaborador”, afirma.

E nada impede, inclusive, que uma entrevista comece até numa ocasião social. “O mundo das indicações/apresentações é muito dinâmico, o tempo todo estamos buscando talentos e apresentando talentos”, comenta Isabel, que listou algumas dicas para gestores conduzirem uma entrevista. “Só não pode querer falar mais que o candidato.”



É preciso saber ouvir...



Para Isabel, as falhas estão sempre ligadas à incapacidade de alguns líderes em saber escutar o interlocutor com interesse, evitando que seus egos ocupem a maior parte da entrevista. “Normalmente, as piores entrevistas são aquelas em que o entrevistador falou mais tempo do que escutou: elas representam uma opressão”, afirma a consultora. “O melhor método é o do diálogo!”



Posicionamento



É evidente que o entrevistador detém o poder na relação com o candidato, ou seja, depende dele, no caso do presidente ou diretor, a aprovação para a vaga. Mas uma coisa é ser generoso, outra é ser “bonzinho”, diz a consultora. “Os bonzinhos têm medo de reprovar o outro e resvalam para a superficialidade”, diz Isabel. É preciso ser firme, seguro. Outra categoria reprovável é a dos preconceituosos. Esses, segundo a consultora, fazem péssima entrevistas e desviam do foco principal ao deixar claro o que não lhe agradam.



Segundo a consultora, o papel do entrevistador é a de facilitador, fazer com que o entrevistado se sinta o mais tranqüilo possível para fornecer as informações. Para isso, o entrevistador precisa estar a par do histórico do entrevistado e saber colocar exatamente as expectativas da empresa. “É preciso ficar claro que o entrevistador também quer que a entrevista dê certo, ou seja, ele quer encontrar a pessoa certa para uma determinada função.”



Critérios



Habilidades e competências para a função, ou melhor, a quantidade de conhecimentos

necessários são condições indispensáveis para aprovar ou não um candidato. Depois, o intuitivo justifica o imponderável, conforme explica. Isabel, que resume da seguinte forma o que se deve levar em conta numa análise de candidato: habilidades, conhecimentos, empatia, conjunto de valores pessoais, disponibilidade, otimismo, flexibilidade e paixão pelo que se faz.



E a vida pessoal?



Parece brincadeira, mas Isabel presenciou a seguinte cena: numa entrevista, um VP perguntou a uma candidata como era a vida sexual dela. A executiva respondeu que era normal para uma pessoa casada há três anos, sem grandes conflitos. Então o VP disse que precisava saber de mais detalhes porque o cargo seria ocupado por alguém que teria de fazer muitas viagens a negócios e, que receberia muitas “cantadas”...



Uma coisa é pessoal, outra é íntima. Falar sobre problemas pessoais, sexo, religião ou atritos políticos, jamais! Mas não há nada demais em querer saber sobre viagens, preferências literárias e musicais, bem como histórias de sucessos e insucessos na carreira do candidato. “Não tem o menor problema o entrevistador se mostrar curioso sobre o habitat social do candidato, só não pode ser evasivo”, aponta Isabel.

“Além do mais, ser casado ou praticar corrida são afinidades que aproximam as pessoas e ajudam criar um laço com qualidade no vínculo profissional.”



Tempo e espaço



A duração de uma entrevista é quase imprevisível. Podem ser 15 minutos, uma hora e até mesmo mais de uma rodada. A quantidade não significa qualidade, mas direção é fundamental. No caso de entrevistar mais de um candidato, procure seguir um roteiro com as perguntas. “Ter um parâmetro para a análise é fundamental, mas isso não significa uma lista de perguntas estáticas, como se tivesse de preencher um questionário”, avisa a consultora.



Quanto ao local, Isabel garante que já viu cenas dignas de filmes. Aeroportos, padarias sofisticadas, restaurantes, tanto em almoço como jantar. “Não importa o local, quanto mais preparados estão os líderes, a par das necessidades da empresa, melhores são as entrevistas.”



O papel do RH



Segundo a consultora, o profissional da área de RH deve preparar os líderes para representarem com ética a empresa. “É importante que gestores e RH dialoguem sobre as entrevistas e feedback dos entrevistados”, comenta Isabel. O importante é desenvolver uma atuação alinhada.



Mas pode acontecer, e acontece, de o presidente ou diretor se mostrar satisfeitíssimo após uma entrevista com um candidato e o responsável pela RH discordar. “Costumo dizer que são os momentos de maior conhecimento na empresa, interessantes nos processos de seleção”, diz Isabel, que emenda: “O importante é que o profissional do RH, ou quem quer que seja, possa conversar abertamente sobre os porquês das escolhas, mas a intuição de um bom líder é insubstituível e certamente trará a melhor resposta.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário