quarta-feira, 5 de maio de 2010

O Turismo e a Hotelaria se adaptam ao Luxo Contemporâneo

O Segmento de viagens está passando por uma profunda mudança
GESTÃO DE NEGÓCIOS | Serviços
Por Gabriela Otto * - 05/05/2010

Nesse mês, foi publicado um artigo na Revista Know intitulado “The Future of Travel: The New Vocabulary of Travel and Tourism”. Ele se baseia em um estudo da agência de comunicação Euro RSCG Worlwide PR, sobre o comportamento de viagem de mais de 2 mil turistas americanos, franceses e ingleses e o impacto em uma “nova” indústria que precisa se reciclar para entregar o serviço esperado.
Marian Salzman, Diretora Geral da Euro RSCG Worldwide PR, afirma: “Durante anos as pessoas entendiam viagens por uma perspectiva pequena, centrada na indulgência, escapismo e diversão. Agora, estão procurando fazer as experiências de viagens mais significativas e mais alinhadas com seus valores e objetivos pessoais. Com milhões de pessoas esperando sentirem-se bem sobre o impacto que têm no mundo, está acontecendo uma reforma de valores e expectativas de viagens.”
Ainda segundo o estudo:

* 66% das pessoas se consideram “cidadãos do mundo”, sugerindo atitudes e enfoque mais globais das marcas.
* 73% crêem que uma viagem mais longa é essencial para tornar uma pessoa mais interessante.
* 59% entendem que para “onde” e “como” viajamos diz muito sobre quem somos.

Esse novo viajante demanda adaptação das marcas do segmento turístico:

* Aceitar e adotar o “verde” como forma padrão de fazer negócios.
* Oferecer produtos e serviços que satisfaçam o desejo das pessoas de viver mais conscientes ambiental e socialmente.
* Dominar os meios sociais para interagir com seus consumidores antes, durante e depois da viagem.
* Adotar novos modelos de luxo.

Esse último item realmente é uma das maiores revoluções. Há uma conscientização emergente entre os consumidores de luxo, já fartos do consumo excessivo e de uma vida cada vez mais artificial e desconectada. A Euro RSCG descobriu que as pessoas estão ávidas por um maior significado em suas vidas.

* 79% dos entrevistados estão preocupados que a sociedade tenha se tornado superficial, preocupando-se com coisas que realmente não importam.
* 66% dos consumidores entendem que as pessoas estão desconectadas do mundo natural.
* 53% das pessoas da pesquisa acham que a comunicação digital está enfraquecendo os laços humanos.
* Alarmados por esta realidade, 84% dos entrevistados diz estar fazendo um esforço real para melhorar quem são e como vivem.

(Fonte: www.qwellbeing.com)
Reprodução

Claus Lindorff, Diretor Executivo da Euro RSCG agency BETC Luxe, ressalta: “O novo estilo de viajar, incluindo turismo cultural e educativo, o geoturismo, voluntariado e o novo ‘slow travel’, estão atendendo esse desejo eminente de mudança no estilo de vida. As redes sociais, por exemplo, estão levando as pessoas a um mercado mais amplo e esse hiper enfoque nos valores sociais nas viagens tem florescido.”
Entender esse mundo emergente de viagens, com todas suas tendências interconectadas e sobrepostas, será vital para qualquer marca que busque crescer no mercado.
Se falarmos de hotelaria de luxo, a mudança é ainda mais cheia de detalhes.
De acordo com Chris Sanderson, do Laboratory, o consumo excessivo de luxo não é mais sinal de sucesso. Não é mais visto como normal a compra de coisas desnecessárias enquanto pessoas morrem de fome e o mundo está super aquecendo. Isso não parece mais “correto”. Nós estamos presenciando a criação de um novo luxo “responsável”.
Entretanto, a idéia é ainda não estar disponível para todos. Ser desejável por todos e acessível para poucos continua sendo a essência do luxo. Queremos nos sentir exclusivos, únicos. Aí está a importância do luxo para nós.
Mas o luxo também não será um assunto conectado somente com “consumo”. Provavelmente veremos uma conexão maior com experiências culturais do que bens materiais. Mais sobre “dividir” e “ser”, do que “ter”.
O relatório “Future Luxury” realizado por David Report, site especializado em estudos de mercado e tendências, aponta oito tendências desse mercado que aspiram manter uma marca forte e sustentável a longo prazo:

1 – Qualidade Atemporal
Infelizmente temos comprado cada vez mais coisas por preços mais baixos. O mundo está cada vez mais cheio e com menos recursos. É hora de dizer não para produtos e serviços que visam alto volume de vendas e preços baixos, e que deixam de lado valores éticos e aspectos ambientais e/ou sociais.
O consumidor do futuro quer encontrar um hotel com comportamento e produto conscientes, tanto em termos de produto, quanto em termos de design e atitude.
Como exemplo, poucas pessoas jogam fora uma cadeira desenhada por Philippe Starck ou um relógio Patek Philippe. Por que? Porque são peças atemporais, com um valor estético inestimável.
Infelizmente, muitos consumidores ainda têm dificuldade em ver diferença entre um hotel barato e um hotel que “não tem preço”. O “valor” para produtos de qualidade ainda é pequeno, mas isso vai mudar. Se analisarmos bem, qualidade é igual à maior longevidade e, automaticamente, menor desperdício.
No futuro, compraremos menos, mas melhores produtos. Preocupar-se com qualidade tem a ver com preocupar-se com nosso futuro comum.

2 – Segurança
Um lugar com ar puro, menos poluição e boa infraestrutura, perto o suficiente de um aeroporto e bem longe do terrorismo, por exemplo, é o ambiente ideal do turismo no luxo do futuro. Tirando a “boa” infraestrutura, o Brasil está muito bem posicionado como destino, não é?
Nós não nos sentiremos mais confortáveis nas grandes cidades como costumamos nos sentir hoje. Veremos o surgimento dos turistas “cosmopolitas”, mas cada vez mais “interioranos”.
Poluição, altos custos de transporte e terrorismo mudarão o modo como as pessoas viajam. Segurança será a preocupação número um.

3 – Marca Emocional
Hoje somos bombardeados por propagandas por onde quer que passemos. Em pouco tempo, não confiaremos mais em propagandas, pois a sensação é de “invasão de espaço”. A validação de um hotel será medida através dos comentários dos nossos amigos (reais ou virtuais), contando suas experiências naquele mesmo local.
O desafio agora é o hotel encontrar novos métodos de relacionamento com seus clientes, envolvê-los, interagindo e oferecendo a experiência da marca de maneira relevante e de acordo com seus desejos.
Com a transparência e exposição inevitável do mundo digital, não se esqueça de cuidar da imagem do seu hotel: cumpra suas promessas e seja honesto.

4 – Um bom “karma”
Que diferença eu farei no mundo? O fator ético ganhará notoriedade. Causas filantrópicas e humanitárias. A cada centavo gasto, as pessoas vão querer ter a certeza de que estão contribuindo para a construção do mundo ideal onde elas aspiram viver. Mais e mais campanhas ambientais e de responsabilidade social serão vistas atreladas a marcas de hotéis de luxo. Esse item, sem dúvida, vai impactar, cada vez mais, na imagem e posicionamento das marcas de hotéis de luxo no mercado.

5 – Tempo
Tempo é (mais ou menos) uma das únicas coisas que se pode comprar com dinheiro. Por isso, é tão desejado. Quando perguntamos o que as pessoas mais desejam na vida, geralmente, ter “qualidade” do seu tempo é um das respostas mais comuns. Acordar pela manhã e fazer exatamente o que queremos é considerado um dos maiores luxos da vida. O mesmo sentimento que temos ao estar de férias. Os italianos definiram bem “as dolce far niente” (a beleza de não fazer nada, exceto relaxar).
Pela perspectiva hoteleira, quanto é possível fazer dentro de um hotel para fazer um hóspede esquecer-se das horas? Sentir-se tão confortável a ponto de lembrar “daquele” momento como sendo “só seu”? Lembre-se de que vivenciamos o mundo através dos nossos sentidos. Sabores, músicas, aromas e texturas são exemplos que nos fazem lembrar certos momentos. Um hotel de luxo deve ser uma “Disney de sensações” para o hóspede que não está comprando uma diária de hotel, mas uma experiência de viagem.

6 – Cultura Local
A autenticidade de uma sociedade atrairá mais turistas no futuro. Enquanto o design se torna global, a produção virou local. Exemplo disso são os hotéis de luxo (geralmente pequenos), que vendem parte da sua decoração, composta por artesanato típico. Idéia sensacional.
Dentro dessa tendência é possível visualizar o novo luxo cultural. A hotelaria tem muitas oportunidades com relação a esse item. Se falarmos de gastronomia, então, começaremos a ver mais e mais promoções de “Festivais Gastronômicos” (tão populares nos hotéis de luxo) com comidas típicas de sua região e não mais de culinária internacional.
Para ilustrar esse item, estive dias atrás conversando com uma agente de viagens pertencente ao networking da Virtuoso no Brasil, e ela me contou sobre um cliente seu que se hospeda em hotéis da mesma marca de luxo no mundo todo a trabalho, e estava indo de férias para Cancun. Na mesma hora, a agente fez uma reserva na marca que ele estava acostumado. Ele não aceitou: “Não quero um hotel em que eu me sinta trabalhando. Quero um hotel que me proporcione a sensação de que eu realmente estou em Cancun.” Ele acabou se hospedando em um hotel de rede nacional, mantendo seu estilo e com o toque “regional” que procurava.
Ressaltar o que há de original e genuíno de sua terra é mais do que tendência, é vital no mercado de luxo.
(Fonte: www.davidreport.com)
reprodução

7 – Alimentação e Saúde
Saúde é, inquestionavelmente, um foco do luxo no futuro. Comida não é caro, mas alimentação saudável sim.
Não é de se admirar que inúmeros hotéis de alto padrão já disponham de cardápios “light” ou uma parte dos seus buffets com alimentação mais balanceada.
A tendência é aumentar ainda mais o escopo desse tipo de alimentação. Produtos orgânicos, “slow food” e a eco-gastronomia serão encontrados nos menus e buffets dos hotéis mais elegantes do mundo.

8 – Edição Limitada
Há quem diga que o mercado de massa já acabou. A volta do “feito à mão” é a sensação no luxo do futuro.
A globalização nos força a comprar a mesma coisa, das mesmas marcas, no mundo todo. Mas as “edições limitadas” nos oferecem a sensação de customização, personalização. Não é à toa que vemos muitas marcas de hotéis de luxo ressaltarem: “Não queremos crescer. Vamos focar a exclusividade sempre. Esse é o nosso diferencial.” Certíssimo.
O grande problema passa pelo ego dos proprietários que, na maioria das vezes, não resistem às oportunidades de mercado e acabam criando uma rede de hotéis, já partindo para “padronização” e, começando assim, sua descida do “topo da pirâmide” da exclusividade.
Não há mais como se contestar que consciência global e social é a nova ordem no mundo dos hotéis de luxo.

Mais informações: www.davidreport.com e www.eurorscg.com

* Gabriela Otto é Diretora de Vendas e Distribuição da Rede de Hotéis de Luxo Sofitel para a América do Sul (www.sofitel.com.br), Professora de Hotelaria do SENAC, MBA em Gestão de Hotelaria de Luxo na URM e do MBA de Marketing da Rio Branco. Também mantém o Blog “Propagando o Marketing” (http://gabrielaotto.blogspot.com) e é Consultora de Luxo.

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